Vou com alguma regularidade a Marvão. Não fica muito longe de minha casa e gosto muito do ar que por lá se respira.

De tanto caminhar pelas suas ruas já tive oportunidade de confirmar: Marvão é muito bonito. Não só a vila mas todos os caminhos, veredas e trilhos circundantes. Não tenho a mínima dúvida!

Há uns dias voltei lá. Estava diferente. Havia qualquer coisa de desencantado nas suas ruas. Fiquei surpreendida. Seria possível ter mudado assim tão radicalmente? O tempo estava encoberto mas não era a primeira vez que percorria as suas ruas sem sol. A meteorologia não era razão suficiente.

À medida que caminhava, esta estranheza melancólica de um lugar que me é tão familiar crescia, instalava-se mais profundamente e começava mesmo a incomodar.

Marvão existe desde o tempo dos romanos. Está estrategicamente pousado no alto de um rochedo que, não ultrapassando os 1000 metros de altitude, se torna imponente por quebrar tão abruptamente a paisagem tendencialmente plana do Alentejo. As primeiras civilizações a chegarem aqui, dizem que se instalaram pela estratégia militar do local. Daqui tudo se vê o que torna quase impossível a aproximação de um inimigo sem que seja detectado. Desconfio que não foi só isso. Olhando em redor para um horizonte que só termina porque a terra é redonda, não duvido que o primeiro homem a sentar-se naqueles rochedos tenha perdido a vontade de continuar a mover-se, esmagado por esta noção tão clara de infinito.

Mais uns passos e reconfirmo: Marvão é incontornavelmente um local bonito. Mas neste dia, por mais que percorra as suas ruas, que espreite para os becos apertados, que me entretenha a olhar a Primavera que começa a instalar-se nos seus jardins ou por tempos infinitos que me sente no alto da torre do castelo a sentir o vento fresco na cara, não encontro a alegria e o privilégio de estar em Marvão.

Até que me rendo a esta incompreensão e deixo de procurar. Encolho os ombros e aceito que Marvão talvez tenha perdido a sua magia. E é neste momento que percebo. Não é a Marvão que falta sol. A beleza de Marvão não se esbateu com o passar dos anos. Tudo está exactamente como estava. Nalguns casos, até melhor graças ao trabalho de recuperação preservação que tem vindo a ser feito.

O que está diferente sou eu. É dentro de mim que o sol não brilha. É no meu coração tristonho que não há espaço para deixar entrar o belo. E suspiro de alívio. Afinal é a minha tristeza. Uma emoção tão válida como todas as outras. Que merece o mesmo respeito. Mas que tem vindo a ser mal tratada por uma sociedade que nos obriga a estar contentes 24 horas por dia/7 dias por semana. De tal forma que nos dias em que a sentimos já nem somos capazes de a reconhecer. Porque tristeza, por alguma razão que cada vez compreendo menos, está associada a derrota ou fracasso. Preferimos ignora-la, engoli-la, recalca-la, por vezes durante tanto tempo que acaba por se tornar crónica sem percebermos como. E em vez de finalmente a aceitarmos, mascaramo-la com pílulas (ou outros métodos) de alegria. Só porque houve um dia em que havia tristeza no nosso coração e não a deixamos sair.

Neste dia em Marvão eu estava triste. E quando me apercebi da minha melancolia, deixei de procurar em Marvão razões para este ambiente cinzento. Aceitei senti-la porque provavelmente no dia seguinte ela teria desaparecido. Porque nada dura para sempre. Sobretudo a tristeza. Porque sou uma privilegiada em viver dias em que inevitavelmente estou triste e posso honrar a minha tristeza em cenários tão amplos, distintos e infinitos como Marvão.

E tomar consciência deste facto faz-me tão feliz.


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Seis meses depois volto ao ponto de partida onde iniciei a minha viagem de 30 dias. Porto de Mós. Sou novamente acolhida pela rua da Saudade. Sou mais uma vez bem recebida pelo olhar taciturno do castelo pousado na linha do horizonte.

Seis meses depois o silêncio das ruas começa de novo a entranhar-se em mim, como um contágio suave e acolhedor. Aparentemente tudo está na mesma. A sensação é de que não chegou ninguém de novo e ninguém partiu. Desconfio que os carros estacionados são ainda os mesmos. Exactamente nos mesmos lugares. Acredito ainda que as duas caixas pousadas ao lado do Ecoponto também ainda não mudaram. Não porque as gentes sejam inactivas, não porque não se trabalhe ou não se viva nesta vila. Simplesmente porque o ritmo que aqui se pratica é desconhecido (e incompreendido) por todos aqueles que, como eu, não são de cá. E ao julgarem a forma de vida desta gente, estão a negar o acesso a uma sabedoria imensa. A sabedoria que nos ensina a viver para além das horas.

Neste fim de semana de descanso que me concedi, encaixado entre duas semanas em que não fui sábia na gestão do meu tempo, os ensinamentos de Porto de Mós são acolhidos de braços abertos. Para me relembrar que saber parar é uma prática tão ou mais preciosa que o embarcar num movimento constante.

O que trago de Porto de Mós é a noção de que o tempo não estica nem encolhe. O tempo não corre. O tempo existe em cada hora, minuto ou segundo. Quem corre somos nós. Atrás dele. Inutilmente. Porque nunca o vamos conseguir agarrar. Seria mais útil – desconfio eu enquanto escuto os ensinamentos de Porto de Mós – se por momentos parássemos de correr. E em vez de tentar agarrar o tempo que na realidade talvez não exista, acolhêssemos a nossa existência neste preciso momento e a aproveitássemos em todo o seu potencial. Sem pressas. Porque o tempo passado já não está cá e o futuro ainda não é. Tudo o que temos é este momento. Será por isso que lhe chamamos Presente?

É início de Fevereiro. Inverno pleno. O frio que se sente confirma-o. Mas o céu azul limpo, a luz estonteante do sol e as cores atrevidas que as mais variadas flores espalham pelas encostas desta face sul da serra de Montejunto levantam dúvidas.

Há claramente uma luta pelo poder entre estas duas estações este ano. E as margens do Sizandro são um dos palcos privilegiados para testemunhar esta batalha.

A cada passo deste percurso, maioritariamente feito em estradas de terra batida ou caminhos de pé posto, sente-se a tensão entre estes dois gigantes. Quando o caminho abre e a paisagem revela os campos a perder de vista é notória a audácia com que os botões despontam em direcção ao sol reclamando um tempo que ainda não lhes pertence. A teimosia com que a Primavera se afirma leva-nos a crer que o Inverno talvez esteja em desvantagem.

Uns passos à frente alguns ramos das árvores cobrem o caminho. O frio espalhado através de uma brisa que se levanta e a lama acumulada na estrada reveladora da humidade no ar são pequenos avisos que o Inverno tem mau feitio e não cederá facilmente. Não será um pequeno capricho primaveril que irá ameaçar o seu reinado.

O auge desta luta dá-se no topo de um monte, o ponto mais alto deste percurso. Neste espaço existem dois moinhos abandonados e um horizonte a perder de vista. Enquanto a Primavera conquista sorrateiramente a encosta espalhando ervas, flores, borboletas e aromas perfumados, lá no cimo, os moinhos são a prova de que o Inverno não deve ser subestimado. Os moinhos são antigos (o mais velho tem 150 anos) e estão desactivados não só porque os tempos evoluíram mas também porque foram sucessivamente atingidos por raios furiosos de tempestades enviadas pelo mau feitio da estação fria.

Descemos. Vamos de novo ao encontro do Sizandro e sentamo-nos mesmo ao lado da sua nascente. Esta luta entre os elementos da natureza não é nossa. Nem deste rio. Nós continuaremos a andar assim como o leito do Sizandro continuará a correr ao nosso lado, indiferentes às contendas da mãe Natureza.

Não vale a pena aspirar pela chegada precoce da Primavera ou suspirar pela água ausente que alimentará as terras secas. Não são datas nos calendários que definem as estações do ano, não é a nossa vontade que vai fazer aparecer chuva ou sol.

Queixamo-nos constantemente do tempo. Está frio, está calor, está vento, chove, faz sol… Queixamo-nos porque não o controlamos. E, como seres humanos, temos uma enorme dificuldade em aceitar aquilo que foge do nosso domínio. De tal forma que nem percebemos que na realidade, na vida não controlamos quase nada.

Estou convencida que no dia em que relaxarmos e humildemente admitirmos que a vida acontece independentemente da quantidade de cálculos que acompanham os nossos riscos, a nossa caminhada será sempre aquilo que tínhamos desejado que fosse. Faça chuva ou faça sol.

O aroma a esteva característico desta região do Baixo Alentejo é mascarado por um intenso cheiro a metal. O verde que habitualmente habita os campos da planície desapareceu. As cores que vestem a paisagem variam entre o amarelo e o castanho escuro. O caminho que se pisa não transmite a segurança dos pés bem assentes na terra. Os passos tornam-se cautelosos como se andássemos por cima de uma ferida que ainda não está completamente cicatrizada.

A primeira vez que esta terra ofereceu os tesouros do seu ventre foi ainda antes da invasão romana na península Ibérica. Nesta altura os povos levaram daqui ouro, prata e cobre.

Depois de um longo período de discreta existência, o solo de S. Domingos voltou a revelar o seu segredo. Em 1858, quando há muito o homem tinha deixado de ser nómada. Culpa do sedentarismo ou não, a ambição humana tinha também ela mudado. Quem chegou aqui nesta altura não era uma pequena tribo de passagem mas uma civilização ambiciosa que perante tal generosa oferta, se instalou e exigiu mais. Exigiu durante mais de 100 anos, reclamando com seu aquilo que era preciosamente gerado no ventre da terra. Exigiu para lá da capacidade de fecundidade destes solos. Rasgou a crosta até 120 metros de profundidade, deixando-a a céu aberto, exposta aos elementos. Quando já pouco havia para oferecer à superfície revelada à força, o homem continuou a perfurar, entre poços e galerias, atingindo uma profundidade de 400 metros.

Até que a terra, indignada com tamanha falta de respeito, se cansou. Em 1965 tornou-se infértil. E amaldiçoou com o fantasma da falência aqueles que sem dó nem piedade durante todo este tempo lhe rasgaram as entranhas.

Uma população inteira foi arrastada por este infortúnio. Uma aldeia ricamente construída à sua volta foi abandonada, deixando-se cair aos poucos, de cabeça baixa com da vergonha de quem ultrapassa os limites da ambição desmedida.

Já no século XXI, aos poucos a população volta. Devagar, timidamente a pedir licença para reocupar as casas, para voltar a percorrer as ruas. Desta vez com uma outra ambição. A ambição de não esquecer como é feio exigir demais a quem nos oferece generosamente um presente.

A terra já deixa que a pisem de novo. Mas não abdicou da sua esterilidade. Ainda se sente no ar a sua indignação. Felizmente a sua capacidade de regeneração e de perdão é grande e aos poucos lá vai deixando que uma árvore vingue aqui e ali.

Este sítio existe hoje para lembrar aos homens que a terra tem muita riqueza para nos oferecer. É nosso dever aceitar com conta, peso, medida e bom senso.
O cheiro a metal, a aridez da paisagem e a cautela com que o solo acolhe os nossos passos sentem-se hoje em S. Domingos para nos mostrar isso mesmo.

Vale a pena percorrer estes caminhos reflectindo sobre todos os excessos desnecessários com que vivemos actualmente. Fazendo uma análise sobre a ganância, sobre a necessidade constante de satisfação de desejos materiais.

Vale a pena a visita a este lugar de coração aberto para sentir a sua história. Porque mesmo disfarçada de outros cenários, corremos o risco que se torne a nossa.

Assim estejam as condições meteorológicas do nosso lado, estaremos no próximo Sábado pelas 10h00 a aquecer as articulações em Sobral de Monte Agraço.

Deixo o desafio a quem mais nos queira acompanhar. Não prometo que não entrem pedras nos sapatos, não garanto que o caminho esteja claramente marcado nem asseguro que o sol vai brilhar ao longo de todo o percurso. Tenha a certeza que cada dificuldade que eventualmente surja será transformada num desafio, numa aventura, numa gargalhada e em mais uma partilha de passos contentes.

Desta vez vamos acompanhar 11 kms do rio Sizandro num percurso entre estradas de terra batida, pontes romanas e moínhos de vento. Muitos e muito antigos.

Para mais informações consultem a página das caminhadas.

Para confirmarem a vossa presença, por favor enviem-me um e-mail.

A semana passada alguém chegou ao pé de mim e disse-me: “hoje entrou-me uma pedra para dentro do sapato. Quando a senti, fiz tantas analogias que se fosse tu, escreveria um texto sobre o assunto.”

Desafio aceite!

Quando ando pelo campo, em caminhos de pé-posto, é comum saltarem pedrinhas para dentro do sapato. Obviamente é uma sensação incomodativa e que reclama a minha atenção imediata. Para resolver o assunto, tenho várias opções, todas elas já testadas:

  • Continuo a caminhada, tentando ignorar o mau estar.
  • Bato com o pé no chão de modo a encaixar a pedra em algum canto do sapato onde não dê por ela.
  • Páro, descalço-me, retiro o objecto que está a mais, calço-me e retomo o caminho

Na caminhada dos dias são muitas as vezes que nos entram “pedras para o sapato” na perseguição das nossas intenções, dos nossos desejos, dos nossos sonhos. Tal como no campo temos também, pelo menos três opções para lidar com o assunto:

  • Fingir que não se passa nada e seguir em frente. Confesso, com muito pouco orgulho, que já experimentei este modelo. Ignorar uma situação que nos está a perturbar não faz com que ela desapareça. Tende a agravá-la. Uma pedra no sapato a moer durante vários quilómetros dá origem a umas valentes e dolorosas bolhas nos pés que podem até impedir-nos de continuar.
  • Sacudir para o lado e continuar. É uma solução temporariamente eficiente quando nos sentimos sobrecarregados. Já me ajudou naqueles momentos da vida em que parece que tudo acontece ao mesmo tempo. Há que parar, arrumar alguns desafios a um canto para conseguir resolver outros. Porém o obstáculo não deixa de existir. Não o eliminámos totalmente e a qualquer momento pode voltar a incomodar-nos. A seu tempo devemos sempre voltar a dar-lhe a atenção que nos pediu no início. Tal como a pedra arrumada a um canto da bota que deixa de doer mas se a ignorarmos durante muito tempo pode estar a causar dano a uma parte menos sensível do pé. Ou a estragar um sapato confortável.
  • Parar, investir tempo em perceber o problema e resolvê-lo. Eliminá-lo de raiz. Para mim é bastante claro que é a melhor solução. Numa caminhada, se não parar para tirar uma pedra do sapato com receio de atrasar o resto do grupo, corro o risco de mais tarde, quando uma bolha já se formou algures na sola do pé, perturbar ainda mais a cadência da passada de todos. Depois de resolvido, dificilmente o mesmo problema nos volta a incomodar. E se voltar, temos a vantagem de já saber como lidar com ele.

Quando uma pedra no sapato nos perturba o andar, quanto mais depressa nos livrarmos dela, mais depressa recuperamos o conforto dos nossos passos. Mais rapidamente nos realinhamos com os nossos objectivos canalizando a atenção e a energia para onde realmente são úteis.

E quando a pedra cair no chão, antes de continuarmos, vale a pena deitar-lhe um segundo olhar mais atento. Nunca se sabe quando é que uma pedra no sapato pode ser afinal um pequeno diamante em bruto!

Vamos descobri-los na próxima caminhada? Sábado 21 de Janeiro para quem se quiser juntar. Publico mais detalhes na próxima semana.

 

Gosto de caminhar por Lisboa. Raramente utilizo o carro. Muitas vezes “falho” entradas nas estações de metro só para prolongar o prazer de andar nas ruas.

Esta minha disponibilidade para partilhar os meus passos com a cidade leva-me a assistir a muitas situações particulares, a conhecer recantos curiosos, a interagir com pessoas únicas e a testemunhar eventos inusitados.

Esta semana, depois de um farto jantar de amigos no Príncipe Real, decidi caminhar até ao Rossio. Porque a noite estava amena, a rua luminosa e as pessoas felizes.

A meio do percurso passei pelo wc de um centro comercial onde Lisboa me tinha deixado uma das suas “surpresas”. Fui testemunha da história dramática de uma mulher grávida a perder a sua criança. Assisti espantada pelo facto de ela estar a viver a situação de forma leve (até sorridente) enquanto eu sofria por não conseguir ajudá-la. Espantei-me com a quantidade de outras mulheres que passaram por ali e viraram as costas sem sequer perguntar se era preciso ajuda.

O drama era dela. De mais ninguém. Não era meu embora o meu coração batesse acelerado. Não era da senhora que faz segurança no local apesar de andar às voltas sem saber o que fazer a seguir. Muito menos seria das mulheres que passaram por lá e fugiram de imediato. Era apenas daquela mulher e, no entanto, ela era a única que ainda conseguia sorrir.

As minhas caminhadas por Lisboa estão cheias de histórias. Algumas como esta. Outras felizmente alegres e divertidas. Não porque tenha uma tendência cármica para atrair situações curiosas. Não porque a minha vida daria uma telenovela. Estas são explicações demasiado egocentradas. Antes porque quando caminho por Lisboa estou completamente presente na cadência dos meus passos. Estou disponível para tudo o que a cidade tem para me oferecer.

Os dramas que eventualmente encontro não os tomo como meus. São de quem os vive e não tenho o direito de lhes tirar esse protagonismo. Porque precisam de ajuda. Não sinto necessidade de os evitar. E a minha presença pode fazer a diferença. Mesmo que muito pequena.

Assim como as alegrias que testemunho. Podem não ser minhas mas deixam sempre alguma sensação de alegre contágio. De partilha humana. Calorosa.

Presenciar situações curiosas nas caminhadas rotineiras dos dias é uma consequência de viver no presente. Podem não ser sempre fáceis mas tornam-nos pessoas mais ricas. E cidadãos mais úteis!

O dia acordou tão discretamente que quando saímos de casa tive dúvidas se já teria começado. Estava frio e nevoeiro mas todos carregávamos nas mochilas grandes quantidades de esperança de que o sol iria vencer esta contenda. Acreditámos que tinha o poder suficiente para em breve afastar todas as nuvens que não nos permitiam ver a mais de cem metros de distância.

Começámos a andar a partir do centro de Arruda dos Vinhos. Uma vila com muito pouca popularidade. Nunca ouvi ninguém dizer “vou ali tomar um café a Arruda dos Vinhos”  da mesma forma que se fala de Sintra, Óbidos ou Cascais. O que é pena. Porque vale a pena.

Dista menos de uma hora de Lisboa, as casas baixas distribuem-se harmoniosamente pelas ruas que revelam as cores de uma vila rural mimada (e bem!) pela sua população. Tem a vantagem de ser pitoresca, ter bons acessos e, claro, lugares para estacionar o carro.

Saímos de Arruda a pé, monte acima, em direcção à serra de Montejunto. Seguindo as indicações que o mapa nos dava. Porque a acreditar no que víamos à nossa frente, apenas mergulhávamos mais e mais na névoa branca que se adensava, fazendo-nos duvidar se existiria mundo para lá do passo seguinte.

Ao longo do percurso pela serra acreditamos que passámos por fortes que tiveram um papel fundamental na defesa de Lisboa na altura das invasões francesas. Estivemos mesmo ao lado de parques eólicos de moinhos gigantes. Percorremos vales imensos banhados por ribeiros onde vivem azenhas e cascatas. Fomos acompanhados pelo olhar vigilante das águias, dos falcões, das lebres e das perdizes que povoam a região.


Confiámos cegamente no que o folheto nos dizia. O frio aumentava de forma proporcional à concentração de nuvens. Ao fim de quase três horas de caminhada percebemos que o sol se tinha rendido e perdido esta batalha. Rendemos-nos também e iniciámos a nossa descida de volta a Arruda por entre estradas asfaltadas e quintais de terrenos acidentados. Todos ansiosos por banhos quentes e refeições aconchegantes.

Mesmo sem horizonte, não nos faltou imaginação fértil e paixão pela passada. Juntos descobrimos que o nevoeiro tem vantagens: ao avançar num caminho que se esconde cobardemente atrás das nuvens, podemos ver tudo aquilo que a imaginação alcança.

Felizmente para o grupo que se reuniu neste dia a imaginação alcança muito mais que a visão. Esta é apenas um sentido que às vezes também nos engana. Há que mantê-la aberta, atenta e criativa mesmo quando aparentemente tudo é névoa. Porque se deixarmos fluir a nossa capacidade de ver para além das nuvens, os caminhos que percorremos podem ter o potencial que lhes quisermos dar.

fotos: Rui Romão

 

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“Tive um dia terrível” é uma frase comum nas bocas da actualidade. A mim preocupa-me a quantidade de vezes que a ouço quando reflito sobre a dimensão do que ela pode representar.

E sinto-me privilegiada.

Já tive dias menos bons. Já tive dias tristes. Mas tenho a sorte de nunca ter tido um dia terrível. Nunca passei fome, nunca tive de dormir na rua, nunca fui violentada, nunca vivi em ambiente de guerra, nunca assisti a fúrias da natureza que destroem vidas e bens sem discriminação, considero-me uma pessoa saudável com acesso fácil a cuidados de saúde e higiene básicos.

A semana passada senti o vazio de uma perda. Fechei uma porta. Larguei a casa onde vivi nos últimos meses. Um espaço mágico que foi cenário para tantas mudanças na minha vida. Chorei ao sentir que enquanto fechava a porta pela última vez, terminava uma importante viagem. Tanto interna como externa. Mas não foi um dia terrível.

Alegrei-me no momento seguinte.

Enquanto descia as escadas percebi que na verdade não perdi nada. As viagens não acabam. Ficam as fotografias, as experiências, as memórias. Fica a terra na sola dos sapatos e o cheiro nas malas acabadas de desfazer. Mais importante, fica gravada na pele e na alma a experiência do tempo vivido e experimentado.

Fechei a porta da casa que me fez feliz porque é a única maneira de seguir viagem em busca de outras formas de felicidade. Se não houver movimento, interno ou externo, não há percurso, não há evolução. E viajar significa largar, fechar portas, seguir. Mesmo que nos pareçam momentos tão avassaladores que nos sintamos tentados a classificá-los como terríveis.

Quando isso acontece prefiro parar, olhar em volta e mudar o foco: em vez de sentir apenas que estou a perder
algo, tomar consciência daquilo que estou a ganhar. Garanto, pela experiência dos anos vividos que uma perda, um dia mau ou uma má notícia não chegam solteiras. Há sempre uma oportunidade de crescimento que as segue. Cabe-nos a nós aproveitá-las.

E deixar de ter dias terríveis.

Assim, também hoje este blog encerra o ciclo das reflexões e assume-se como o espaço exclusivo da descoberta de Portugal. Não apenas em 30 dias mas em dias infinitos. Todos os meses do ano. A começar com a primeira caminhada anunciada com um convite para todos os curiosos não só dos recantos lusitanos mas também da vida, do mundo e do ser humano. Mais informações aqui.

Os meus textos de reflexão não acabam. Seguem também viagem para outro blog já aqui ao lado, à distância de um clique. Rumam até um novo desafio de escrita a dois num espaço que apesar de nascer hoje, já tem alguns anos de viagem. Em conjunto.

Convido-vos a atravessarem comigo esta nova porta que se abre. Subscrevam aqui para continuarem a receber os meus textos. E os do meu novo companheiro de escrita e viagens.

Visitem-nos com frequência
. Comentem-nos sem receios. Temos tanto prazer em ler o vosso feedback como temos em escrever os nossos pensamentos.

Até já

Por terras de Atalaia, o caminho faz-se entre trilhos que jogam às escondidas com o leito do Tejo.

São caminhos na fronteira do Norte Alentejano construídos em tempos antigos quando os moleiros pediam a colaboração da força da água das ribeiras para lhes moer os cereais. As estradas entre as velhas azenhas e as aldeias nasceram da continuidade da passada destas gentes. E ficaram no tempo. Até hoje.

As azenhas ainda lá estão, a desfrutar do seu período de reforma. As ribeiras ainda correm inquietas até ao Tejo. Mas dos moleiros, os únicos vestígios são apenas os caminhos que os seus pés desenharam na terra.

Não estou só. Já não caminhava acompanhada há tanto tempo que quase me tinha esquecido do bom que é. Larguei os mapas, a atenção ao caminho e deixei-me levar. Um largar que cria uma analogia curiosa com o percurso da semana que passou. Também ela cheia de oportunidades de largar, deixar ir.

Quando isto acontece, o espaço à minha volta é diferente. Relaxo e mergulho de forma mais confiante naquilo que o percurso me oferece. Aprendo a seguir sem expectativas mas com entusiasmo. Deixo de me preocupar com o objectivo e aproveito os momentos que se vão construindo em cada passo. Sem olhar para o mapa, certa de que o destino e quem me acompanha me guiam com segurança.

Tal como esta semana, neste caminho percebi que largar não implica perda. Adiciona um novo conjunto de oportunidades que antes estavam invisíveis quando seguia em linha recta crente de que existia apenas o caminho em frente, quase sem levantar os olhos do mapa.

No campo, tal como a experiência ainda tão presente da semana que passou, posso olhar a 360º, em todas as direcções e perceber que cada grau do horizonte é uma possibilidade de largar e confiar. Em mim. No caminho. Em quem me acompanha.

Desafio-vos a acompanharem-me na próxima caminhada e experimentarem isso mesmo na prática. É no dia 8 de Dezembro. Em Arruda dos Vinhos. Às 10h00.

Mais informações neste link.

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