Vou com alguma regularidade a Marvão. Não fica muito longe de minha casa e gosto muito do ar que por lá se respira.
De tanto caminhar pelas suas ruas já tive oportunidade de confirmar: Marvão é muito bonito. Não só a vila mas todos os caminhos, veredas e trilhos circundantes. Não tenho a mínima dúvida!
Há uns dias voltei lá. Estava diferente. Havia qualquer coisa de desencantado nas suas ruas. Fiquei surpreendida. Seria possível ter mudado assim tão radicalmente? O tempo estava encoberto mas não era a primeira vez que percorria as suas ruas sem sol. A meteorologia não era razão suficiente.
À medida que caminhava, esta estranheza melancólica de um lugar que me é tão familiar crescia, instalava-se mais profundamente e começava mesmo a incomodar.
Marvão existe desde o tempo dos romanos. Está estrategicamente pousado no alto de um rochedo que, não ultrapassando os 1000 metros de altitude, se torna imponente por quebrar tão abruptamente a paisagem tendencialmente plana do Alentejo. As primeiras civilizações a chegarem aqui, dizem que se instalaram pela estratégia militar do local. Daqui tudo se vê o que torna quase impossível a aproximação de um inimigo sem que seja detectado. Desconfio que não foi só isso. Olhando em redor para um horizonte que só termina porque a terra é redonda, não duvido que o primeiro homem a sentar-se naqueles rochedos tenha perdido a vontade de continuar a mover-se, esmagado por esta noção tão clara de infinito.
Mais uns passos e reconfirmo: Marvão é incontornavelmente um local bonito. Mas neste dia, por mais que percorra as suas ruas, que espreite para os becos apertados, que me entretenha a olhar a Primavera que começa a instalar-se nos seus jardins ou por tempos infinitos que me sente no alto da torre do castelo a sentir o vento fresco na cara, não encontro a alegria e o privilégio de estar em Marvão.
Até que me rendo a esta incompreensão e deixo de procurar. Encolho os ombros e aceito que Marvão talvez tenha perdido a sua magia. E é neste momento que percebo. Não é a Marvão que falta sol. A beleza de Marvão não se esbateu com o passar dos anos. Tudo está exactamente como estava. Nalguns casos, até melhor graças ao trabalho de recuperação preservação que tem vindo a ser feito.
O que está diferente sou eu. É dentro de mim que o sol não brilha. É no meu coração tristonho que não há espaço para deixar entrar o belo. E suspiro de alívio. Afinal é a minha tristeza. Uma emoção tão válida como todas as outras. Que merece o mesmo respeito. Mas que tem vindo a ser mal tratada por uma sociedade que nos obriga a estar contentes 24 horas por dia/7 dias por semana. De tal forma que nos dias em que a sentimos já nem somos capazes de a reconhecer. Porque tristeza, por alguma razão que cada vez compreendo menos, está associada a derrota ou fracasso. Preferimos ignora-la, engoli-la, recalca-la, por vezes durante tanto tempo que acaba por se tornar crónica sem percebermos como. E em vez de finalmente a aceitarmos, mascaramo-la com pílulas (ou outros métodos) de alegria. Só porque houve um dia em que havia tristeza no nosso coração e não a deixamos sair.
Neste dia em Marvão eu estava triste. E quando me apercebi da minha melancolia, deixei de procurar em Marvão razões para este ambiente cinzento. Aceitei senti-la porque provavelmente no dia seguinte ela teria desaparecido. Porque nada dura para sempre. Sobretudo a tristeza. Porque sou uma privilegiada em viver dias em que inevitavelmente estou triste e posso honrar a minha tristeza em cenários tão amplos, distintos e infinitos como Marvão.
E tomar consciência deste facto faz-me tão feliz.






















